Está aí uma coisa que eu não sabia (entre 17milhões de outras). Há uma tradição de editores dedicionários e enciclopédias incluírem pelo menos umverbete falso em suas obras, para protegerem seu 5copyright*, facilitando processos de plágio contraeventuais copiadores. Quem repete o verbete falso éporque copiou, por mais que o disfarce.Não sei se o costume (da cópia), sobre o qual li numarecente revista The New Yorker**, existe no Brasil. Se10existe, pode-se pensar num desafio intelectual:identificar no “Aurelião” e no “Houaissão” as palavrascriadas na hora pelos seus editores para desencorajara reprodução clandestina. Já fiz um teste superficial eencontrei várias palavras suspeitas nos dois dicionários. “15Efor”, por exemplo. Chefe de um país ou de um exércitoque preside a imolação das vítimas. Conta outra! “Osqüidate”. Relativo aos osqüidates, povo da Gáliaaquitânica. Rá! Pode-se imaginar o brilho nos olhos dequem bolou esta. “Trofobiose” é outra palavra altamente20improvável. E sempre desconfiei que “esdrúxulo” foiinventada por um antigo dicionarista que sentia falta deuma palavra que descrevesse coisas, assim,esdrúxulas, sem sonhar que sua criação pegaria.Os autores de enciclopédias devem se divertir25ainda mais. A New Yorker cita o exemplo de umapersonalidade fictícia, uma fotógrafa, incluída numaedição da Columbia Encyclopedia, com falsa biografia (do seu nascimento numa cidadezinha provavelmenteinventada também até sua morte prematura numa30explosão), falsos títulos, falso tudo, de cuja existêncianinguém jamais duvidou. O autor da fabricação cumpriu,em parte, o sonho do Jorge Luis Borges, que, um dia,respondendo a uma daquelas clássicas perguntas feitasa escritores, disse que a obra que gostaria de ter escrito35era a décima-primeira edição da Enciclopédia Britânica.Quantos autores não teriam tido o mesmo gosto aoserem convocados para inventar verbetes caucionários (se existe a palavra) para enciclopédias? Não apenasartistas com fins trágicos, cientistas fantásticos, figuras40históricas que nunca foram — como efors osqüidatespraticantes de trofobiose — mas países imagináriosinteiros, continentes, partículas subatômicas, práticassexuais. E com os novos recursos da editoraçãoeletrônica, podendo até incluir fotos das pessoas e45bichos que inventavam.Nenhuma enciclopédia é cem por centoconfiável, portanto. Eu confesso que nunca acrediteimuito na existência do Uzbequistão.VERÍSSIMO, Luiz Fernando. Jornal O Globo, 9 out. 2005. (adaptado)
* copyright – direitos reservados
50** The New Yorker – revista americana de variedades