Eu estava na França nos idos dos anos 80. Ligando a televisão, ouvi por acaso uma
entrevista com um jovem piloto de Fórmula I. Foi-lhe perguntado em quem se
inspirava como piloto iniciante. A resposta foi pronta: Ayrton Senna. O curioso é
que nessa época Senna não havia ganho uma só corrida importante. Mas bastou ver o
piloto brasileiro se preparando para uma corrida: era o primeiro a chegar no
treino, o único a sempre fazer a pista a pé, o que mais trocava idéias com os
mecânicos e o último a ir embora. Em outras palavras, sua dedicação, tenacidade,
atenção aos detalhes eram tão descomunais que, aliadas a seu talento, teriam de
levar ao sucesso.
Por que tal comentário teria hoje alguma importância?
Cada época tem seus ídolos, pois eles são a tradução de anseios, esperanças,
sonhos e identidade cultural daquele momento. Mas, ao mesmo tempo, reforçam e
ajudam a materializar esses modelos de pensar e agir.
Já faz muito tempo, Heleno de Freitas foi um grande ídolo do futebol. Segundo
consta, jactava-se de tomar uma cachacinha antes do jogo, para aumentar a
criatividade. (...) O ídolo era a genialidade pura do futebol-arte.
Mais tarde, Garrincha era a expressão do povo, com sua alegria e
ingenuidade.(...) Era a espontaneidade, como pessoa e como jogo, e era facilmente
amado pelos brasileiros, pois materializava as virtudes da criação genial. (...)
Até que veio Pelé. Genial, sim. Mas disciplinado, dedicado e totalmente
comprometido a usar todas as energias para levar a cabo sua tarefa. (...)
É bem adiante que vem Ayrton Senna. Tinha talento, sem dúvida. Mas tinha mais do
que isso. Tinha a obsessão da disciplina, do detalhe e da dedicação total e
completa.
Há mais do que uma coincidência nessa evolução. Nossa escolha de ídolos evoluiu
porque evoluímos.(...) Era a apologia da genialidade pura.(...) Amadurecemos.
Cresceu o peso da razão nos ídolos. A emoção ingênua recuou. Hoje criamos espaço
para ídolos cujo êxito é, em grande medida, resultado da dedicação e da
disciplina — como Pelé e Senna. (...)
Tais ídolos trazem um ideário mais disciplinado e produtivo. (...)
Nossa educação ainda valoriza o aluno genial, que não estuda — ou que,
paradoxalmente, se sente na obrigação de estudar escondido e jactar-se de não
fazê-lo. O cê-dê-efe é diminuído, menosprezado, é um pobre-diabo que só obtém bons
resultados porque se mata de estudar. A vitória comemorada é a que deriva da
improvisação, do golpe de mestre. E, nos casos mais tristes, até competência na
cola é motivo de orgulho.
Parte do sucesso da educação japonesa e dos Tigres Asiáticos provém da crença de
que todos podem obter bons resultados por via do esforço e da dedicação. Pelo
ideário desses países, pobres e ricos podem ter sucesso, é só dar duro.
O êxito em nossa educação passa por uma evolução semelhante à que aconteceu nos
desportos — da emoção para a razão. É preciso que o sucesso escolar passe a ser
visto como resultado da disciplina, do paroxismo da dedicação, da premeditação e
do método na consecução de objetivos.
MOURA CASTRO, Cláudio de. Revista Veja, 6 jun. 2001.