Fazia 15 anos que Ademilton Pereira Lima, de 50 anos, não andava de bicicleta.
Naquele domingo ensolarado, em junho de 2009, ele estava apreensivo: iria encarar
10 quilômetros sobre a magrela.
Com ele estavam 80 colegas de profissão, todos motoristas de ônibus, função que
Ademilton desempenha há 25 anos.
O passeio foi uma iniciativa da empresa que coordena o sistema de ônibus em São
Paulo, a SPTrans, com o objetivo de conscientizar os motoristas da importância de
respeitar os ciclistas no trânsito.
“Mesmo pedalando num grupo grande, num domingo, já nos sentíamos apreensivos ao
ouvir o barulho dos carros. No trânsito do dia a dia, então, é muito mais difícil”,
diz Ademilton, ao lembrar da experiência. Hoje, ele toma mais cuidado quando passa
por alguém andando de bicicleta, pois sabe como é ser a pessoa no veículo mais
frágil.
“Passei a respeitar mais, a ver que é um meio de transporte como os outros, com o
mesmo direito de estar na rua”, afirma.
Ao deixar de lado, por um dia, sua posição de motorista para assumir o papel de
ciclista, Ademilton praticou uma atividade fundamental para a convivência: a arte
de se colocar no lugar do outro, chamada pelos psicólogos de empatia.
“É um exercício que todos deveriam fazer sempre, em relação ao namorado, ao marido,
aos pais, aos amigos”, diz Antonio Carlos Amador Pereira, professor de Psicologia
(...). “Pensar no que o outro está sentindo e nos perguntar o que faríamos se
estivéssemos no lugar dele são a chave para facilitar o diálogo”, completa.(...)
Lições do almoço
(...) Diariamente, a necessidade de compreensão está bem perto de nós – dentro de
casa, por exemplo. Para Ana Lúcia Queiroz, de 44 anos, de São Paulo, o caso foi
exatamente assim.
Há alguns meses, sua filha Tamara, de 25 anos, começou a frequentar aulas de ioga
e, aos poucos, foi deixando de comer carne.
Quando soube que a filha havia se tornado vegetariana, Ana Lúcia não gostou nem um
pouco. “Fiquei brava, com medo de que ela tivesse uma anemia”, conta.
Devagar, Tamara começou a mostrar algumas receitas para a mãe.
Explicou que havia substituições saudáveis, e que ela não ficaria doente se comesse
de forma variada. Ainda desconfiada, Ana Lúcia foi experimentando as receitas.
Começou a gostar. Um dia, ela revelou a Tamara: “Estou há uma semana sem comer
carne”. A filha abriu um sorriso de orelha a orelha:
“Não esperava convencer o pessoal de casa a virar vegetariano. Mas conseguir a
aceitação foi ótimo”. Hoje, a mãe raramente come carne.
Ana Lúcia teve dificuldade em se adaptar, mas, quando deu uma chance à nova maneira
de pensar e agir da filha, começou a perceber vantagens. “Aprendi a apreciar o
sabor mais suave dos outros alimentos e me sinto melhor, mais leve”, conta.
Os novos hábitos acabaram aproximando mãe e filha, que hoje trocam receitas
diferentes...
Da mesma forma que Ademilton, ..., Ana Lúcia aprendeu como vivenciar novos pontos de
vista pode ser transformador, nos tornando pessoas mais tolerantes e conscientes.
Seja em relação a estranhos, pessoas próximas, seja a nós mesmos. (...)
CALLEGARI, Jeanne. In: Sorria no 11, dez. 2009/jan.2010. (Adaptado)