Você já discutiu relação por e-mail? Não discuta. O correio eletrônico é
uma arma de destruição de massa (cerebral) em caso de conflito. Quer discutir?
Quer quebrar o pau, dizer tudo o que sente, mandar ver, detonar a outra parte?
Faça isso a sós, em ambiente fechado. [...]
Brigar por e-mail é muito perigoso. Existe pelo menos um par de boas
razões para isso. A primeira é que você não está na frente da pessoa. Ela não é
“humana” a distância, ela é a soma de todos os defeitos. A segunda razão é que
você mesmo também perde a dimensão de sua própria humanidade. Pelo
e-mail as emoções ficam no freezer e a cabeça, no microondas.
Ao vivo, um olhar ou um sorriso fazem toda a diferença. No e-mail todo
mundo localiza “risos”, mas ninguém descreve “choro”.
Eu sei disso, porque cometi esse erro. Várias vezes. Nunca mais cometerei,
espero. [...] Um tiroteio de mensagens escritas tende à catástrofe. Quando você
fala na cara, as palavras ficam no ar e na memória e uma hora acabam sumindo de
ambos. “Eu não me lembro de ter dito isso” é um bom argumento para esfriar as
tensões. Palavras escritas ficam. Podem ser relidas muitas vezes.
Ao vivo, você agüenta berros [...]. Responde no mesmo tom rasteiro. E segue em
frente. Por e-mail, cada frase ofensiva tende a ser encarada como um
desafio para que a outra parte escolha a arma mais poderosa destinada ao ponto
mais fraco do “adversário”. Essa resposta letal gera uma contra-resposta capaz
de abalar os alicerces do edifício, o que exigirá uma contra-contra-resposta
surpreendente e devastadora. Assim funciona o ser humano, seja com mensagens,
seja com bombas nucleares.
Ao vivo, um pode sentir a fraqueza do outro e eventualmente ter o nobre gesto de
poupar aquelas trilhas de sofrimento e rancor. Ao vivo, o coração comanda. Por
e-mail é o cérebro que dá as cartas. [...]
E tem o fator fermentação. Você recebe um e-mail hostil. Passa horas
intermináveis imaginando qual será a terrível, destrutiva resposta que vai dar.
Seu cérebro ferve com os verbos contundentes e adjetivos cruéis que serão usados
no reply. Aí você escreve, e reescreve, e reescreve de novo, e a cada
nova versão seu texto está mais colérico, e horas se passam de refinamento
bélico do texto até que você decida apertar o botão do Juízo Final, no caso o
Enviar. Começam então as dolorosas horas de espera pela resposta à sua
artilharia pesada. É uma angústia saber que você agora é o alvo, imaginar que
armas serão usadas. E dependendo do estado de deterioração das relações, você
poderá enlouquecer a ponto de imaginar a resposta que vai dar à mensagem que
ainda nem chegou.
É por isso que eu aconselho, especialmente aos mais jovens: se for para mandar
mensagens de amizade, se é para elogiar, se é para declarar amor, use e abuse
dos meios digitais. E-mail, messenger, chat,
scraps, o que aparecer. Mas se for para brigar, brigue pessoalmente. A
não ser, claro, que você queira que o rompimento seja definitivo. Aí é só abrir
uma nova mensagem e deixar o veneno seguir o cursor.
MARQUEZI, Dagomir, Revista Info Exame, jan. 2006. (adaptado)